quarta-feira, novembro 11, 2009

O mal do século




Muito se disse que o estresse é o mal do século. Desde criança escuto isso.

Realmente, olhando em volta, há muitos motivos para se ficar estressado com a vida que levamos.

E nem adianta dizer que a praia, o parque, as flores e o céu conseguem apagar a perturbação do trabalho, a insegurança das ruas, as guerras e a destruição da natureza.



Porém, mais que estressados no mundo, creio que há pessoas carentes.

E o mundo de qual falo é aquele em que todos estão interligados, a todo tempo, e assim mesmo estão tão distantes uns dos outros.

O estressado é fácil de ser identificado pelos seus sinais exteriores: gestos, condutas e linguajar.

O carente, pelo contrário, muitas vezes sofre em silêncio e só somos apresentados aos efeitos negativos de seu mal sem saber a causa. O carente sofre para dentro.

Enquanto estresse se ameniza, a carência não tem fim; é barco furado.

Então a carência seria o mal do século em lugar do estresse porque ela causa inclusive vários tipos de estresse.



Eu queria terminar logo esse texto, mas lembrei de mais um mal que assola nossa realidade atual: a ansiedade.

Quem não conhece alguém ansioso? Esse é fácil de identificar.

É o computador que não funciona, a conexão que está lenta demais, o trânsito que não se mexe, a hora que não passa, minha vez que não chega, a dificuldade de esperar o outro falar e tanta coisa que nem consigo parar pra pensar.

Há tantas pessoas ansiosas no mundo, criando caso e problemas para os outros, que creio que a ansiedade é o verdadeiro mal do século.



E assim, diante de tantos males, qual seria afinal o mal do século?

Creio que o mal do século é o mal de todos os séculos.

É a origem de todos os males

É o mal maior.

É o mal identificado pelos Mestres há milênios.

É um mal tão simples de ver que ainda não descobrimos a cura.

O mal dos séculos é a falta de amor.



Por falta de amor nos tornamos carentes de tudo.

Até que nos damos conta disso, mas assumir é que é o problema.

Aí vem a ansiedade. E de tudo inventamos para tapar o sol com a peneira, para varrer o elefante para debaixo do tapete, para disfarçar o óbvio.

Como não funciona, ficamos estressados e tudo passa a estressar.

É uma cadeia de eventos criada pela simples falta de amor.



Boa sorte a quem descobriu a origem de seu mal e passa a trabalhar nisso.


quinta-feira, outubro 22, 2009

Ingenuidade

Em tempos de malícia tanta, de melindres mil, de desconfianças sobre desconfianças, de falsidades e de traições de onde se menos espera, venho me perguntando se o conceito de ingenuidade mudou nos dias de hoje.


Será que a ingenuidade ainda deve ser confundida “ausência de defesa” e “incapacidade de ataque” ou já é possível imaginar uma certa “pureza de coração” todavia equipada de eficazes instrumentos de defesa contra as injustas investidas da vida?


Para mim, o maior exemplo de verdadeiro poder é o controle de si próprio. E quanto maior for o poder que se tem, mais controle de si próprio se exigirá. O indivíduo incapaz de se controlar é escravo de si próprio. É um animal socializado por fora e bestializado por dentro. Por outro lado, quem não tem poder sobre nada, pouco haverá de se controlar e pouco será o seu mérito.


Assim, para um Super, não é fácil manter o controle com tantos poderes à disposição. Poder voar, ter superforça, enxergar através de paredes e ser invulnerável requer muito controle para não interceder em guerras genocidas, não exterminar tantas pessoas cruéis que ainda perturbam a vida na Terra, não destruir armas, se controlar para não varrer das ruas os motoristas dementes ou mesmo não exagerar na força ao se defender dos ataques diários que sofremos de pessoas deselegantes.


Mas tanto poder e controle não retiram nem podem retirar a ingenuidade, a pureza de coração, não fazem deixar de crer sempre no que há de bom nas pessoas, na verdade de posturas e de condutas, na boa-fé ao proceder e até mesmo no sagrado direito de ser enganado pela malícia dos outros. Devemos endurecer sem perder a ternura, como nos disse o irmão Tche.


Dentre nós, maior exemplo de uma boa combinação de poder, pureza e controle é o Mestre e Irmão Maior Jesus, que esteve nós apenas pregando amor verdadeiro, mas foi ofendido, agredido e assassinado, sem contudo jamais abrir mão da altivez de seu espírito e do controle de si próprio.


Boa sorte a todos que aprenderam a se defender sem abrir mão da pureza de seu coração.

sexta-feira, setembro 25, 2009

A TEORIA DA RELATIVA IDADE


Tenho sérias suspeitas de que a Teoria da Relatividade, de Einstein, tem a ver com a nossa idade.

Lembro de quando era criança e sequer tinha idéia do tempo muito menos de sua passagem. Já um pouco mais velho, ainda tão entretido com os brinquedos, tinha certeza de que 10 anos levariam uma eternidade para passar; o que não afetaria minhas brincadeiras. Aos 20 anos, tinha visto muito coisa acontecer, mas ainda achava que os 30 pertenciam a um futuro longínquo e fui adiando tantas e quantas realizações para a época em que eu seria mais um “coroa”.

Hoje, ao ver uma década passar mais de três vezes, constato como foi rápida a eternidade imaginada na infância, que se leva menos de 10 anos para passar dos 20 aos 30 e que meus adiamentos se acumularam em inúmeros afazeres em nome do tempo perdido, pois “já já” estarei me aposentando.


E é nessa hora em que fica clara a completa relatividade da nossa percepção do tempo. Os sinais de trânsito, que eram medidos em segundos, hoje furtam eternidades. As partidas de futebol, que duravam mais de hora e meia, hoje passam num instante, principalmente quando nosso time está perdendo. Os bons filmes acabam sem a menor cerimônia e as tardes são repletas de desenhos animados. Os semestres, que antes duravam meio ano, agora não passam de uma breve seqüência de dias… E assim vai e, quando menos se espera, já foi.


E daqui por diante, como será a percepção do tempo? Será que entre os 30 e os 40 será ainda mais breve que a década passada? Aos 50 terei visto meia-vida passar com a certeza de que amanhã já são os 80? Suspeito sem certezas.


A única certeza que tenho é a de que o jovem tem pressa, embora o tempo para ele passe tão devagar. Há espaço para muitas realizações, mas tudo é uma agonia só. Tudo é muito intenso, todos os amores são para a vida toda e fim deles tem a definitividade da morte até que o próximo ocorra. O jovem tem a certeza de que o mundo vai se acabar amanhã e, portanto, não se pode esperar o tempo de nada.


Por outro lado, muito embora para o idoso tenha uma compreensão mais sistemática da vida e suas ocorrências, sendo-lhe permitido uma maior serenidade e parcimônia de agir, o tempo para ele voa implacavelmente, e a vida, olhada para trás, não passou de um lampejo, uma fração de segundo, no registro da memória.


Boa sorte a todos que aprenderam a usufruir de seu tempo.

domingo, julho 19, 2009

A paz do amor


Como advertiu Paulo Coelho: “amar é não estar em paz”; porque quem ama nunca está em paz.


Mas a falta de paz do amor é uma coisa boa.


Não é a falta de paz do tipo que perturba, que angustia, que dá a sensação de que o tempo não passa, que os problemas não se resolvem e estão sempre ali, nos alertando de sua presença.


A falta de paz boa do amor faz o nosso coração acelerar sim, mas é de felicidade, de uma ansiedade saudável, porque queremos fazer o tempo passar mais rápido para reencontrarmos logo a pessoa amada.


E quando encontramos a pessoa amada, a falta de paz boa do amor suaviza o tempo. Ele passa devagar, parece não passar, passa não passando e termina sem avisar, assim de surpresa mesmo. Mas não tem importância. Para quem ama, um segundo diante do outro já é bom demais. Não foram Roberto e Erasmo Carlos que disseram: “na paz do seu sorriso meus sonhos realizo e te beijo feliz”? Pois bem.


A falta de paz do amor perturba de uma forma boa porque deixa sempre um gostinho de quero mais. E lá no fundo a gente sabe que o mais um pouquinho que a gente quer uma hora chega de novo.


Embora saiba que paz é incompatível com o amor, tudo que eu quero dele é que ele me traga paz. Porque se quem ama não está em paz, menos paz ainda há para aquele que não ama.


Boa sorte a todos aqueles que escolheram que tipo de falta de paz querem para as suas vidas.





segunda-feira, junho 15, 2009

Let me out or let me in…


A música é um sucesso atual, mas o enredo é dos mais antigos.


Na minha modestíssima opinião, essa história de “me deixe entrar ou me deixe partir” nada mais é do que “pressão” escondida em palavras doces. Algumas pessoas funcionam bem sob pressão, mas relacionamentos não são assim.


A física experimental nos mostra que a pressão, quando bem empregada, é útil. Mas no campo de provas dos relacionamentos humanos, a experiência doméstica já ensinou que pressão demais, sem controle, pode resultar em fadiga de material ou mesmo em explosão. É tudo uma questão de tempo.


É justamente por falar em tempo que ninguém quer perder o seu estando ou querendo estar ao lado de alguém. Qualquer relacionamento gera expectativas e expectativas se contam numa proporção tempo-ganho.


Porém, como entender e respeitar o tempo de cada um? Como colocar a nossa velocidade no coração e na mente do outro? Como fazer com que um perceba a noção de tempo do outro? E depois da passagem do tempo, como saber se cada segundo foi ou não proveitoso? E o que se ganha depois disso? Como saber o que é ganho e o que são perdas quando se fala de relacionamentos?


O que não me soa bem nesse tipo de proposição “me queira ou me deixe”, “é tudo ou nada”, “é agora ou nunca”, é a transferência de toda a responsabilidade do ganho/perda do relacionamento para o tempo do outro. Acredito no ganho, no tempo proveitoso, até mesmo na solidão muito bem acompanhada.


Sim. Porque relacionamento solitário é completamente diferente de solidão acompanhada. Muitos não se dão conta do quanto são solitários, mesmo estando num relacionamento; ao passo que aos “sozinhos” não faltam companhias, alegrias, amigos e bons momentos consigo mesmo.


Boa sorte a todos que encontraram seu tempo e lidam bem com isso… porque já não há mais a preocupação com a perda e ganho.



segunda-feira, abril 06, 2009

Gentileza e Gente Lesa




Diz a lenda que o padre Priestley, descobridor do “oxigênio”, anotou em suas pesquisas: “Acabei de descobrir um gás novo. Até agora, apenas eu e meus ratos o respiramos”. Mal sabia o padre Priestley que havia respirado aquele gás por toda a sua vida.


Nunca me esqueci dessa história porque ela me levou a refletir que a graça do óbvio não é dizer o que todos já sabem, mas mostrar o que estava diante dos olhos e ninguém percebeu até então; de informar o que todos não sabem que já sabiam e que agora só é óbvio porque você falou.


É por isso que o filósofo leva vantagem, pois percebe o mundo à sua volta de uma maneira que as outras pessoas já não conseguem mais porque se entregaram à perplexidade. Para elas tudo ficou comum, tudo ficou óbvio, já sabemos de tudo que nos cerca, não há mais o que se questionar, não há mais novidades.


Digo tudo isso pra justificar também dizer o meu óbvio sobre o problema do trânsito nas cidades. Acredito que muitos já tenham percebido, mas não se deram conta de que é possível sintetizar a questão numa simples proporção matemática: gentileza / gente lesa. Explico.


O caos no trânsito pode ser explicado por um fenômeno bastante freqüente na atualidade e que ali ganha proporções quilométricas: o baixíssimo índice de atos de gentileza, de camaradagem, de solidariedade e de fraternidade, em nome da esperteza, da cortada, da distração, do egoísmo, da mesquinhez, da megalomania e do egocentrismo. A pura e simples pressa para atrasar os outros.


Ao mesmo tempo, temos um acentuado índice de pessoas destituídas das mínimas condições cerebrais de conduzir a si próprios, quanto mais a um veículo em velocidade entre tantos outros.


Eis o meu óbvio: a situação do trânsito decorre da injusta desproporção entre o que se faz e o que se deveria fazer; entre a gentileza e a gente lesa.


Boa sorte a todos que praticam a gentileza, pois certamente não participam da outra metade do problema.


sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Carnaval 2009



Neste Carnaval não precisei fugir para a Fortaleza da Solidão para ter um pouco de paz e descansar. Estive numa cidade maravilhosa. Ela era silenciosa e tranqüila. As pessoas lá eram ordeiras e educadas. Não faziam barulho à toa nem incomodavam seus vizinhos.


Nessa cidade, pude descansar de verdade. Foi estranho amanhecer sem o “carro do gás”, o “carro da fruta” e o “carro do picolé”, pois onde moro qualquer um tem seu próprio carro-de-som para poluir o ambiente. Era possível até ouvir o canto dos pássaros!


Acostumado com a minha cidade, achei muito estranho dirigir lá. O trânsito fluía normalmente e ninguém se movia como se estivesse entorpecido. Mal usei a buzina. Não tinha circo nem comércio nas faixas de pedestres. Nenhum motorista em volta socializando seu mal-gosto musical.


E com dias assim, as noites eram melhores ainda. Não acordei toda hora com alguém passando de carro com o som nas últimas.


O melhor de tudo é que nem precisei sair de casa para encontrar essa cidade maravilhosa.


É como eu digo, a Terra é um planeta maravilhoso. O problema é que ele é mal-habitado.

terça-feira, janeiro 27, 2009

O ano do Boi

Diz o horóscopo chinês que o ano de 2009 é o ano do boi, que simboliza o sucesso através do trabalho árduo, com disciplina e responsabilidade.



Eu poderia pensar que tem tudo a ver, já que meu signo é touro e eu particularmente vivo um momento de desafios novos no trabalho, que exigem essa postura de disciplina e de perseverança. No entanto, acho que isso não tem nada a ver.



Acreditar que o ano de 2009 é o ano do sucesso pelo trabalho responsável é acreditar que existem outros anos em que poderemos atingir o sucesso sem esforço ou disciplina; e isso não há. Se existisse, a solução seria só esperar acabar o ano de 2009 pra tudo ser resolvido.



Creio que a melhor interpretação do horóscopo chinês é a de que o esforço e a perseverança, que são características naturais do signo do boi, serão necessárias nesse ano de fortalecimento das conquistas amealhadas no ano passado, o ano do rato. Além disso, quem não tiver tais características, que as desenvolva.



No horóscopo chinês não sou boi, sou tigre. Mas no ocidental, sou touro. O que significa ser forte, paciente, perseverante, disciplinado, meio acomodado, mas que quando dispara ninguém segura. Ah, dizem que sou teimoso também. Mas já falei mais de mil vezes que não sou e ninguém acredita.



Boa sorte a todos que perseveram porque se as conquistas não vierem, pelo menos as respostas chegarão.



sexta-feira, janeiro 23, 2009

Respeito


Ninguém procura advogado, médico e dentista por amenidades.

Se o Super aparece de repente é porque boa coisa não está acontecendo.

Diante do que tenho visto, volto das férias e o primeiro post do ano é sobre “respeito”.

Tenho visto muitas pessoas desrespeitarem as outras sob vários aspectos.
Desrespeito pela aparência, pela idade, pela etnia, pelo sexo já são comuns e até guerra causam.

No entanto, falo agora de um desrespeito mais sutil e que causa danos mais íntimos e de ordem espiritual.

Falo do desrespeito pela vida do outro. Falo do se incomodar com o que o outro faz ou deixa de fazer com a própria vida; falo da inveja, da fofoca, da intriga semeada para prejudicar e separar pessoas.

Condutas assim só expõem o verdadeiro íntimo do invejoso: a confusão mental e espiritual, a infelicidade crônica, a falta de objetivos, uma visão limitada e tacanha da realidade que o cerca, as más influências, os traumas, recalques e neuroses mal-resolvidas, o coração cheio de rancor e vazio de amor, dentre outros.

Mas isso não é incurável. Basta um pouquinho de esforço e de mudança de foco para dar um passo fora dessa vida de escuridão.

Respeite-se. Se dê ao respeito.

Afinal, desrespeito ao próximo é desrespeito a si mesmo. Quem disso usa se rebaixa mais do que a quem pretende prejudicar. Guardar rancor é como tomar veneno e querer que o outro morra.

Um ano novo cheio de respeito e de responsabilidade consigo próprio a todos.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Presente


As festas de fim-de-ano vêm chegando e inevitavelmente minha angústia cresce mais a cada dia.


O apelo comercial não me conquista. É mais a vontade de ser generoso mesmo. Mas a vida não facilita o ato de presentear.


Para mim, a compra dos presentes é mais do que a escolha de livros e cd´s nas prateleiras. Por isso que todo ano é a mesma agonia.


O que dar de presente para quem já tem tudo?


Para quê presentear quem nunca está satisfeito com nada?


Como presentear quem não quer presente?


Por que dar presente para quem é ausente?


Qual a utilidade do presente que eu posso dar para quem precisa de muito mais?


Como achar quem realmente precisa de presente?


E quanto a mim, o que me agradaria ganhar de presente?


Tenho até dúvidas se eu gosto de ganhar algo de presente ou prefiro conquistar, merecer, porque o quê verdadeiramente é “de presente” e o quê é “merecimento” nessa vida?


Boa sorte a todos que reconhecem o merecimento em cada presente que recebem.


quarta-feira, novembro 19, 2008

Playing God



É tão bom brincar de Deus.

Poder julgar as pessoas sem dó nem piedade.

Ser o primeiro a criticar e o último a elogiar.

Não ter reservas de nossos atos quando se trata do outro.

Começar a autocrítica pelo próximo e esquecer de nós mesmos.

Ter forças para enfrentar, mas fraquejar ao dar apoio.

Só abrir a boca pra falar mal e que o silêncio trate do resto.

Ser indulgente e generoso somente consigo próprio.

Esquecer que o dedo que aponta para o próximo está sobre três em nossa direção.


É muito bom brincar de Deus nesse pequeno universo chamado “meu-mundo”.

Em “meu-mundo”, eles reinam e são onipotentes.

Lá é a terra onde nada tem compromisso com nada, onde não se presta contas a ninguém, onde o sol sempre está a brilhar, pois nuvens não se colocam sobre suas cabeças.


Não é à toa que dizem: “quer conhecer alguém? Dê-lhe um mínimo de poder e ele se mostrará”.


Um dia esses tiraninhos levantam a cabeça e têm um vislumbre diferente.

Vêem o “seu-mundo” tão “mundinho”, tão pequeno.

Algo chacoalha o “seu-mundinho” e eles se questionam se esse mundinho é tão universo assim.

Quando esses sóis não brilham mais, quando esses minutos de poder passam, quando os “seus-mundinhos” ficam microscópicos diante da tamanha cegueira; passam então a enxergar o “algo mais”.


Em época de “ensaio sobre a cegueira”, faço uma reflexão e abro os olhos.

Vejo cegos saindo de um vazio existencial e caindo num buraco na vida.

Vejo os cegos pelo poder não poderem mais nada.

Vejo olhos bonitos e luminosos que não têm nada por trás.

Vejo os tiranos dos “mundinhos” enxergarem o quanto nada vêem.


Mas vejo também o quanto fui cego.

Não via a falsidade, os verdadeiros interesses, a manipulação.

E me dou um desconto. Desconto porque sou ingênuo, de bom coração, de pensar o melhor de todos sempre.

E sei que quem erra assim, na verdade não erra, mas acerta errando, e expurga suas próprias cegueiras, abrindo as vistas para outros planos.

Sei também que no “mundo onde todos enxergam de verdade” isso é o que verdadeiramente conta.


Boa sorte aos que têm consciência das próprias cegueiras, pois isso já é enxergar.


domingo, novembro 16, 2008

If you don´t know me by now...


Há uma letra de música do Simply Red que adoro e que vem muito bem a calhar agora.


"If you don´t know me by now, you will never never never know me", numa tradução livre e simplificada quer dizer "se você não me conheceu até agora, não irá mais".


É surpreendente constatar o quanto o passar do tempo e os fatos da vida não são capazes de fazer com que as pessoas se conheçam completamente. Chega um dia em que constatamos que se esse conhecimento não chegou até agora, não chegará mais. A paciência acaba e a sensação de perda de tempo reina.


São surpresas desagradáveis, problemas repetitivos, expectativas insatisfeitas, pesadelos recorrentes; tudo inexplicado, ante o tanto que se conhece do outro, ante o tanto de problemas que se pode evitar – mas não se evita.


Relacionamentos assim viram “samba de uma nota só”; e Jobim não merece essa homenagem.


Se conhecer bem o passado prepara para o bom futuro, quando esse futuro não chega é hora de mudar o presente. É aí que se aplica o "se você não me conheceu até agora, não irá mais".


Se é pra falar de música de novo, prefiro citar os Rolling Stones: pedras que rolam não criam limo.


Limo não é uma coisa boa pra mim. Vou rolar bastante e tomar um banho de rio pra limpar o grude impregnado. Quem sabe lá eu encontro aquele cabeludo ruivo e agradeço por ter me aberto os olhos para o fato de que tudo na vida tem sua hora, seu tempo e seu limite.


Freud dizia que só o conhecimento traz o poder. Que esse conhecimento chegue, mas que ele só traga o poder de fazer o bem.



segunda-feira, novembro 03, 2008

Mudanças



People don´t change”, diz o doutor House, mas será mesmo que pessoas não mudam? Será que os fatos se passam, as dores se desdobram, experiências e decepções se assomam e não somos capazes de mudar?



Quando decepcionamos ou causamos uma boa surpresa a alguém, o quanto disso reside em nós mesmos e o quanto reside nas expectativas que ela mesma nutria a nosso respeito? E o que se pensa a nosso respeito é 100% criado por nós ou há alguma participação de nosso observador na construção dessa imagem?



Eu sou eu e minhas circunstâncias. Se elas mudam, mudo eu; se eu mudo, elas se alteram. Sou eu e meus “ontens” e à medida que os faço diferente, o amanhã também será.



Acredito em fases, em momentos felizes e infelizes, em períodos que pelas contingências da vida nos afastamos de nossa verdadeira essência boa, de nosso “centro vital”, mas que com o tempo ou as experiências certas retomamos o rumo. Só não creio que o “mau” vire “bom” de uma hora pra outra nem que o “bom” regrida à “maldade”.



Dizer que pessoas não mudam é negar o próprio sentido da vida, que é aprender e evoluir incessantemente. Claro que há aqueles que insistem em suas posições, em suas opiniões, em seus comportamentos, e não aceitam reavaliá-los ou se reciclar; mas isso é questão de querer (ou de não querer) mudar; não que a mudança em si seja impossível. Não podemos julgar que não há mudança só porque alguns não acreditam nela.



Eu acredito na mudança. E aquele que muda – ao contrário de quem se acomoda no “eu sou assim mesmo e pronto” – e encara o desafio de se fazer melhor, de crescer, de se superar, em nome do que acredita e ama, só tem a ganhar, portanto, merece crédito, merece uma segunda chance.



Boa sorte a todos que conseguem exercer uma das mais marcantes características da espécie humana, que é a adaptação, e assim crescer, evoluir e contribuir para o todo.

segunda-feira, outubro 13, 2008

A morte do Superman



Todos os dias de nossa preciosa existência morremos um pouco. Nossos dias se aproximam do fim a cada dia que se inicia. A única certeza da vida é a morte.


Porém, imortais são nossos feitos. O que significamos para os outros, os sentimentos, as emoções, as marcas de nossa passagem por essa existência, por mais que temporária, duram pra sempre. Como dizem: o que se leva da vida é a vida que se leva.


Em 1992, foi escrita uma história em que o Superman morria. O choque foi duplo: do mundo, ao se ver sem o seu maior defensor; e do próprio Super, ao descobrir-se capaz de morrer, já que era portador de tantos poderes, de tanta invulnerabilidade. Mas heróis de verdade nunca morrem e não demorou muito para se produzisse a história de seu retorno. A sabedoria ensina que a morte não representa um fim, mas uma passagem, uma transição, uma transformação de algo cuja essência não se altera. E o Super veio ainda melhor: experiente, amadurecido e mais forte.


O que fica disso tudo é que, por mais mortais que sejamos, por mais temporária que seja a vida e suas experiências, há algo de imortal em todos nós. Algo que não se apaga, que o tempo não leva e que levamos conosco para onde quer que formos e que também deixaremos nos corações daqueles para quem fomos tão importantes um dia.


Boa sorte a todos que compreendem que “morrer” é algo relativo para quem trabalha numa perspectiva de “eternidade”.


quarta-feira, setembro 24, 2008

Xadrez do amor



Para quem gosta de xadrez, há uma variação desse jogo muito mais sutil, porém muito mais difícil, chamada “xadrez do amor”.



Nesse jogo, o tabuleiro é muito mais extenso e o acompanha a qualquer lugar. Você pode estar jogando xadrez do amor sem perceber, inclusive à distância. Por isso, ele exige muito mais atenção, pois há muito mais como errar e acertar.



Nele, as peças não são pretas e brancas. Tudo é meio cinzento, meio indefinido, furta-cor, de variados matizes. Seus movimentos podem ser claros e objetivos ou sutis, suaves, melindrosos, vacilantes, subliminares, imperceptíveis.



Quando as conseqüências de seus movimentos não implicam apenas o binômio vitória-derrota, o ir ou não para a caixa, mas sim a conquista ou perda de um coração, as regras não ficam nada claras, mas, mais das vezes, caóticas e assustadoras.



Não perceber claramente as “cores” das peças e o significado de seus movimentos confunde a nossa percepção de quem está ganhando e de quem está perdendo. Quais são os lados desse jogo? Quem são os times? Há opositores? Afinal, o que é “perder” e o que é “ganhar”?



Não dá para saber, dá apenas pra sentir o momento da amarga derrota, quando o rei deita sozinho sobre o seu tabuleiro, ou da doce vitória, quando ele ganha a companhia da rainha ao seu lado.



Por não ter regras tão definidas, o xadrez do amor também permite uma leveza, uma fluidez, uma flexibilidade, uma suavidade, uma adaptação muito maior de movimentos.



E nem adianta pensar muito. Nesse jogo o raciocínio pouco importa. Aliás, o xadrez do amor é muito pouco racional e muito mais intuitivo. Nele a lógica é invertida. Nele tomamos atitudes “irracionais”, traçamos rotas tortas, fazemos o impensado, o ilógico, mas atingimos objetivos certos, desejados, e às vezes, não imaginados até mesmo por nós.



Boa sorte a todos que jogam xadrez do amor com o coração e escutam a sua verdadeira razão.


domingo, setembro 07, 2008

Fábulas




Hoje há uma aparente diferença quanto às expectativas dos sexos, desde a nossa tradicional compreensão até os dias atuais.


Na boba comédia “um conto quase de fadas”, o príncipe chega num cavalo branco, vê a princesa deitada num caixão de cristal e, sob os olhares dos bichos da floresta, acorda-a com um beijo.


Quando ela abre os olhos, já está de mau-humor, vai logo reclamando da demora do seu salvamento, dizendo que não poderia esperar outra coisa dos homens, que são todos uns molóides e manhosos.


Mesmo assim, ele, apaixonado, faz mil promessas. Fala que vai levá-la para o seu castelo, que vão se casar, que ela será “a sua princesa” e a toma no colo.


Mas ela imediatamente pula dali e pergunta: “do quê você está falando, quem disse que eu quero esse negócio de ser sua princesa? Grande vantagem essa! Pensa que eu não leio jornais? Já estou até vendo: festas, caçadas, aventuras em terras distantes, enquanto eu fico trancada no castelo. Depois vem filhos, adultério, separação e advogados. Eu tenho meus sonhos, meus anseios, minha carreira pela frente e ela não tem nada a ver com você. Muito obrigada”. E cai na estrada sozinha, deixando o príncipe com cara de tacho.


Para equilibrar, outro dia me mandaram a menor fábula do mundo, que conta: um sujeito encontra uma garota e pergunta “quer casar comigo?”. Ela se vira e diz “não”. Então ele foi feliz para sempre… podia sair com os amigos e chegar a hora que quisesse, não precisava pisar em ovos, responder perguntinhas capciosas nem sofrer com flutuações de humor mensais, etc, etc, etc …


Contra isso, dizem que estatisticamente o número de casamentos aumentou. Só não avisaram que o de divórcios também! E o mais grave de tudo: 100% dos divórcios começam num casamento!


Por que isso está acontecendo? Por que houve um desencanto dessa magnitude? Será que as nossas expectativas, de um para com o outro, mudaram tanto assim que não há mais pontos em comum suficientes para manter homens e mulheres unidos por muito tempo? Será nos encontramos no momento do desencontro, onde homens e mulheres caminharão para direções diferentes e sozinhos, depois de curtos períodos juntos? Será que, por não nos compreendermos, viveremos em sucessivos encontros e despedidas? Será que esses eventuais encontros serão não mais que tentativas temporárias de fazer dar certo, até aquele fatídico dia da separação ou da conformação?


Ou serão verdadeiras tentativas de fazer dar certo, de caminhar adiante, de viver, de experimentar, de aprender, mesmo que errando?


Hoje não ofereço respostas ou conclusões, apenas reflexões. Reconheço a minha incapacidade para lidar com o tema. Como diz a sapiência de Ana Carolina, “eu que não sei quase nada do mar, descobri que não sei nada de mim”.