segunda-feira, abril 06, 2009

Gentileza e Gente Lesa




Diz a lenda que o padre Priestley, descobridor do “oxigênio”, anotou em suas pesquisas: “Acabei de descobrir um gás novo. Até agora, apenas eu e meus ratos o respiramos”. Mal sabia o padre Priestley que havia respirado aquele gás por toda a sua vida.


Nunca me esqueci dessa história porque ela me levou a refletir que a graça do óbvio não é dizer o que todos já sabem, mas mostrar o que estava diante dos olhos e ninguém percebeu até então; de informar o que todos não sabem que já sabiam e que agora só é óbvio porque você falou.


É por isso que o filósofo leva vantagem, pois percebe o mundo à sua volta de uma maneira que as outras pessoas já não conseguem mais porque se entregaram à perplexidade. Para elas tudo ficou comum, tudo ficou óbvio, já sabemos de tudo que nos cerca, não há mais o que se questionar, não há mais novidades.


Digo tudo isso pra justificar também dizer o meu óbvio sobre o problema do trânsito nas cidades. Acredito que muitos já tenham percebido, mas não se deram conta de que é possível sintetizar a questão numa simples proporção matemática: gentileza / gente lesa. Explico.


O caos no trânsito pode ser explicado por um fenômeno bastante freqüente na atualidade e que ali ganha proporções quilométricas: o baixíssimo índice de atos de gentileza, de camaradagem, de solidariedade e de fraternidade, em nome da esperteza, da cortada, da distração, do egoísmo, da mesquinhez, da megalomania e do egocentrismo. A pura e simples pressa para atrasar os outros.


Ao mesmo tempo, temos um acentuado índice de pessoas destituídas das mínimas condições cerebrais de conduzir a si próprios, quanto mais a um veículo em velocidade entre tantos outros.


Eis o meu óbvio: a situação do trânsito decorre da injusta desproporção entre o que se faz e o que se deveria fazer; entre a gentileza e a gente lesa.


Boa sorte a todos que praticam a gentileza, pois certamente não participam da outra metade do problema.


sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Carnaval 2009



Neste Carnaval não precisei fugir para a Fortaleza da Solidão para ter um pouco de paz e descansar. Estive numa cidade maravilhosa. Ela era silenciosa e tranqüila. As pessoas lá eram ordeiras e educadas. Não faziam barulho à toa nem incomodavam seus vizinhos.


Nessa cidade, pude descansar de verdade. Foi estranho amanhecer sem o “carro do gás”, o “carro da fruta” e o “carro do picolé”, pois onde moro qualquer um tem seu próprio carro-de-som para poluir o ambiente. Era possível até ouvir o canto dos pássaros!


Acostumado com a minha cidade, achei muito estranho dirigir lá. O trânsito fluía normalmente e ninguém se movia como se estivesse entorpecido. Mal usei a buzina. Não tinha circo nem comércio nas faixas de pedestres. Nenhum motorista em volta socializando seu mal-gosto musical.


E com dias assim, as noites eram melhores ainda. Não acordei toda hora com alguém passando de carro com o som nas últimas.


O melhor de tudo é que nem precisei sair de casa para encontrar essa cidade maravilhosa.


É como eu digo, a Terra é um planeta maravilhoso. O problema é que ele é mal-habitado.

terça-feira, janeiro 27, 2009

O ano do Boi

Diz o horóscopo chinês que o ano de 2009 é o ano do boi, que simboliza o sucesso através do trabalho árduo, com disciplina e responsabilidade.



Eu poderia pensar que tem tudo a ver, já que meu signo é touro e eu particularmente vivo um momento de desafios novos no trabalho, que exigem essa postura de disciplina e de perseverança. No entanto, acho que isso não tem nada a ver.



Acreditar que o ano de 2009 é o ano do sucesso pelo trabalho responsável é acreditar que existem outros anos em que poderemos atingir o sucesso sem esforço ou disciplina; e isso não há. Se existisse, a solução seria só esperar acabar o ano de 2009 pra tudo ser resolvido.



Creio que a melhor interpretação do horóscopo chinês é a de que o esforço e a perseverança, que são características naturais do signo do boi, serão necessárias nesse ano de fortalecimento das conquistas amealhadas no ano passado, o ano do rato. Além disso, quem não tiver tais características, que as desenvolva.



No horóscopo chinês não sou boi, sou tigre. Mas no ocidental, sou touro. O que significa ser forte, paciente, perseverante, disciplinado, meio acomodado, mas que quando dispara ninguém segura. Ah, dizem que sou teimoso também. Mas já falei mais de mil vezes que não sou e ninguém acredita.



Boa sorte a todos que perseveram porque se as conquistas não vierem, pelo menos as respostas chegarão.



sexta-feira, janeiro 23, 2009

Respeito


Ninguém procura advogado, médico e dentista por amenidades.

Se o Super aparece de repente é porque boa coisa não está acontecendo.

Diante do que tenho visto, volto das férias e o primeiro post do ano é sobre “respeito”.

Tenho visto muitas pessoas desrespeitarem as outras sob vários aspectos.
Desrespeito pela aparência, pela idade, pela etnia, pelo sexo já são comuns e até guerra causam.

No entanto, falo agora de um desrespeito mais sutil e que causa danos mais íntimos e de ordem espiritual.

Falo do desrespeito pela vida do outro. Falo do se incomodar com o que o outro faz ou deixa de fazer com a própria vida; falo da inveja, da fofoca, da intriga semeada para prejudicar e separar pessoas.

Condutas assim só expõem o verdadeiro íntimo do invejoso: a confusão mental e espiritual, a infelicidade crônica, a falta de objetivos, uma visão limitada e tacanha da realidade que o cerca, as más influências, os traumas, recalques e neuroses mal-resolvidas, o coração cheio de rancor e vazio de amor, dentre outros.

Mas isso não é incurável. Basta um pouquinho de esforço e de mudança de foco para dar um passo fora dessa vida de escuridão.

Respeite-se. Se dê ao respeito.

Afinal, desrespeito ao próximo é desrespeito a si mesmo. Quem disso usa se rebaixa mais do que a quem pretende prejudicar. Guardar rancor é como tomar veneno e querer que o outro morra.

Um ano novo cheio de respeito e de responsabilidade consigo próprio a todos.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Presente


As festas de fim-de-ano vêm chegando e inevitavelmente minha angústia cresce mais a cada dia.


O apelo comercial não me conquista. É mais a vontade de ser generoso mesmo. Mas a vida não facilita o ato de presentear.


Para mim, a compra dos presentes é mais do que a escolha de livros e cd´s nas prateleiras. Por isso que todo ano é a mesma agonia.


O que dar de presente para quem já tem tudo?


Para quê presentear quem nunca está satisfeito com nada?


Como presentear quem não quer presente?


Por que dar presente para quem é ausente?


Qual a utilidade do presente que eu posso dar para quem precisa de muito mais?


Como achar quem realmente precisa de presente?


E quanto a mim, o que me agradaria ganhar de presente?


Tenho até dúvidas se eu gosto de ganhar algo de presente ou prefiro conquistar, merecer, porque o quê verdadeiramente é “de presente” e o quê é “merecimento” nessa vida?


Boa sorte a todos que reconhecem o merecimento em cada presente que recebem.


quarta-feira, novembro 19, 2008

Playing God



É tão bom brincar de Deus.

Poder julgar as pessoas sem dó nem piedade.

Ser o primeiro a criticar e o último a elogiar.

Não ter reservas de nossos atos quando se trata do outro.

Começar a autocrítica pelo próximo e esquecer de nós mesmos.

Ter forças para enfrentar, mas fraquejar ao dar apoio.

Só abrir a boca pra falar mal e que o silêncio trate do resto.

Ser indulgente e generoso somente consigo próprio.

Esquecer que o dedo que aponta para o próximo está sobre três em nossa direção.


É muito bom brincar de Deus nesse pequeno universo chamado “meu-mundo”.

Em “meu-mundo”, eles reinam e são onipotentes.

Lá é a terra onde nada tem compromisso com nada, onde não se presta contas a ninguém, onde o sol sempre está a brilhar, pois nuvens não se colocam sobre suas cabeças.


Não é à toa que dizem: “quer conhecer alguém? Dê-lhe um mínimo de poder e ele se mostrará”.


Um dia esses tiraninhos levantam a cabeça e têm um vislumbre diferente.

Vêem o “seu-mundo” tão “mundinho”, tão pequeno.

Algo chacoalha o “seu-mundinho” e eles se questionam se esse mundinho é tão universo assim.

Quando esses sóis não brilham mais, quando esses minutos de poder passam, quando os “seus-mundinhos” ficam microscópicos diante da tamanha cegueira; passam então a enxergar o “algo mais”.


Em época de “ensaio sobre a cegueira”, faço uma reflexão e abro os olhos.

Vejo cegos saindo de um vazio existencial e caindo num buraco na vida.

Vejo os cegos pelo poder não poderem mais nada.

Vejo olhos bonitos e luminosos que não têm nada por trás.

Vejo os tiranos dos “mundinhos” enxergarem o quanto nada vêem.


Mas vejo também o quanto fui cego.

Não via a falsidade, os verdadeiros interesses, a manipulação.

E me dou um desconto. Desconto porque sou ingênuo, de bom coração, de pensar o melhor de todos sempre.

E sei que quem erra assim, na verdade não erra, mas acerta errando, e expurga suas próprias cegueiras, abrindo as vistas para outros planos.

Sei também que no “mundo onde todos enxergam de verdade” isso é o que verdadeiramente conta.


Boa sorte aos que têm consciência das próprias cegueiras, pois isso já é enxergar.


domingo, novembro 16, 2008

If you don´t know me by now...


Há uma letra de música do Simply Red que adoro e que vem muito bem a calhar agora.


"If you don´t know me by now, you will never never never know me", numa tradução livre e simplificada quer dizer "se você não me conheceu até agora, não irá mais".


É surpreendente constatar o quanto o passar do tempo e os fatos da vida não são capazes de fazer com que as pessoas se conheçam completamente. Chega um dia em que constatamos que se esse conhecimento não chegou até agora, não chegará mais. A paciência acaba e a sensação de perda de tempo reina.


São surpresas desagradáveis, problemas repetitivos, expectativas insatisfeitas, pesadelos recorrentes; tudo inexplicado, ante o tanto que se conhece do outro, ante o tanto de problemas que se pode evitar – mas não se evita.


Relacionamentos assim viram “samba de uma nota só”; e Jobim não merece essa homenagem.


Se conhecer bem o passado prepara para o bom futuro, quando esse futuro não chega é hora de mudar o presente. É aí que se aplica o "se você não me conheceu até agora, não irá mais".


Se é pra falar de música de novo, prefiro citar os Rolling Stones: pedras que rolam não criam limo.


Limo não é uma coisa boa pra mim. Vou rolar bastante e tomar um banho de rio pra limpar o grude impregnado. Quem sabe lá eu encontro aquele cabeludo ruivo e agradeço por ter me aberto os olhos para o fato de que tudo na vida tem sua hora, seu tempo e seu limite.


Freud dizia que só o conhecimento traz o poder. Que esse conhecimento chegue, mas que ele só traga o poder de fazer o bem.



segunda-feira, novembro 03, 2008

Mudanças



People don´t change”, diz o doutor House, mas será mesmo que pessoas não mudam? Será que os fatos se passam, as dores se desdobram, experiências e decepções se assomam e não somos capazes de mudar?



Quando decepcionamos ou causamos uma boa surpresa a alguém, o quanto disso reside em nós mesmos e o quanto reside nas expectativas que ela mesma nutria a nosso respeito? E o que se pensa a nosso respeito é 100% criado por nós ou há alguma participação de nosso observador na construção dessa imagem?



Eu sou eu e minhas circunstâncias. Se elas mudam, mudo eu; se eu mudo, elas se alteram. Sou eu e meus “ontens” e à medida que os faço diferente, o amanhã também será.



Acredito em fases, em momentos felizes e infelizes, em períodos que pelas contingências da vida nos afastamos de nossa verdadeira essência boa, de nosso “centro vital”, mas que com o tempo ou as experiências certas retomamos o rumo. Só não creio que o “mau” vire “bom” de uma hora pra outra nem que o “bom” regrida à “maldade”.



Dizer que pessoas não mudam é negar o próprio sentido da vida, que é aprender e evoluir incessantemente. Claro que há aqueles que insistem em suas posições, em suas opiniões, em seus comportamentos, e não aceitam reavaliá-los ou se reciclar; mas isso é questão de querer (ou de não querer) mudar; não que a mudança em si seja impossível. Não podemos julgar que não há mudança só porque alguns não acreditam nela.



Eu acredito na mudança. E aquele que muda – ao contrário de quem se acomoda no “eu sou assim mesmo e pronto” – e encara o desafio de se fazer melhor, de crescer, de se superar, em nome do que acredita e ama, só tem a ganhar, portanto, merece crédito, merece uma segunda chance.



Boa sorte a todos que conseguem exercer uma das mais marcantes características da espécie humana, que é a adaptação, e assim crescer, evoluir e contribuir para o todo.

segunda-feira, outubro 13, 2008

A morte do Superman



Todos os dias de nossa preciosa existência morremos um pouco. Nossos dias se aproximam do fim a cada dia que se inicia. A única certeza da vida é a morte.


Porém, imortais são nossos feitos. O que significamos para os outros, os sentimentos, as emoções, as marcas de nossa passagem por essa existência, por mais que temporária, duram pra sempre. Como dizem: o que se leva da vida é a vida que se leva.


Em 1992, foi escrita uma história em que o Superman morria. O choque foi duplo: do mundo, ao se ver sem o seu maior defensor; e do próprio Super, ao descobrir-se capaz de morrer, já que era portador de tantos poderes, de tanta invulnerabilidade. Mas heróis de verdade nunca morrem e não demorou muito para se produzisse a história de seu retorno. A sabedoria ensina que a morte não representa um fim, mas uma passagem, uma transição, uma transformação de algo cuja essência não se altera. E o Super veio ainda melhor: experiente, amadurecido e mais forte.


O que fica disso tudo é que, por mais mortais que sejamos, por mais temporária que seja a vida e suas experiências, há algo de imortal em todos nós. Algo que não se apaga, que o tempo não leva e que levamos conosco para onde quer que formos e que também deixaremos nos corações daqueles para quem fomos tão importantes um dia.


Boa sorte a todos que compreendem que “morrer” é algo relativo para quem trabalha numa perspectiva de “eternidade”.


quarta-feira, setembro 24, 2008

Xadrez do amor



Para quem gosta de xadrez, há uma variação desse jogo muito mais sutil, porém muito mais difícil, chamada “xadrez do amor”.



Nesse jogo, o tabuleiro é muito mais extenso e o acompanha a qualquer lugar. Você pode estar jogando xadrez do amor sem perceber, inclusive à distância. Por isso, ele exige muito mais atenção, pois há muito mais como errar e acertar.



Nele, as peças não são pretas e brancas. Tudo é meio cinzento, meio indefinido, furta-cor, de variados matizes. Seus movimentos podem ser claros e objetivos ou sutis, suaves, melindrosos, vacilantes, subliminares, imperceptíveis.



Quando as conseqüências de seus movimentos não implicam apenas o binômio vitória-derrota, o ir ou não para a caixa, mas sim a conquista ou perda de um coração, as regras não ficam nada claras, mas, mais das vezes, caóticas e assustadoras.



Não perceber claramente as “cores” das peças e o significado de seus movimentos confunde a nossa percepção de quem está ganhando e de quem está perdendo. Quais são os lados desse jogo? Quem são os times? Há opositores? Afinal, o que é “perder” e o que é “ganhar”?



Não dá para saber, dá apenas pra sentir o momento da amarga derrota, quando o rei deita sozinho sobre o seu tabuleiro, ou da doce vitória, quando ele ganha a companhia da rainha ao seu lado.



Por não ter regras tão definidas, o xadrez do amor também permite uma leveza, uma fluidez, uma flexibilidade, uma suavidade, uma adaptação muito maior de movimentos.



E nem adianta pensar muito. Nesse jogo o raciocínio pouco importa. Aliás, o xadrez do amor é muito pouco racional e muito mais intuitivo. Nele a lógica é invertida. Nele tomamos atitudes “irracionais”, traçamos rotas tortas, fazemos o impensado, o ilógico, mas atingimos objetivos certos, desejados, e às vezes, não imaginados até mesmo por nós.



Boa sorte a todos que jogam xadrez do amor com o coração e escutam a sua verdadeira razão.


domingo, setembro 07, 2008

Fábulas




Hoje há uma aparente diferença quanto às expectativas dos sexos, desde a nossa tradicional compreensão até os dias atuais.


Na boba comédia “um conto quase de fadas”, o príncipe chega num cavalo branco, vê a princesa deitada num caixão de cristal e, sob os olhares dos bichos da floresta, acorda-a com um beijo.


Quando ela abre os olhos, já está de mau-humor, vai logo reclamando da demora do seu salvamento, dizendo que não poderia esperar outra coisa dos homens, que são todos uns molóides e manhosos.


Mesmo assim, ele, apaixonado, faz mil promessas. Fala que vai levá-la para o seu castelo, que vão se casar, que ela será “a sua princesa” e a toma no colo.


Mas ela imediatamente pula dali e pergunta: “do quê você está falando, quem disse que eu quero esse negócio de ser sua princesa? Grande vantagem essa! Pensa que eu não leio jornais? Já estou até vendo: festas, caçadas, aventuras em terras distantes, enquanto eu fico trancada no castelo. Depois vem filhos, adultério, separação e advogados. Eu tenho meus sonhos, meus anseios, minha carreira pela frente e ela não tem nada a ver com você. Muito obrigada”. E cai na estrada sozinha, deixando o príncipe com cara de tacho.


Para equilibrar, outro dia me mandaram a menor fábula do mundo, que conta: um sujeito encontra uma garota e pergunta “quer casar comigo?”. Ela se vira e diz “não”. Então ele foi feliz para sempre… podia sair com os amigos e chegar a hora que quisesse, não precisava pisar em ovos, responder perguntinhas capciosas nem sofrer com flutuações de humor mensais, etc, etc, etc …


Contra isso, dizem que estatisticamente o número de casamentos aumentou. Só não avisaram que o de divórcios também! E o mais grave de tudo: 100% dos divórcios começam num casamento!


Por que isso está acontecendo? Por que houve um desencanto dessa magnitude? Será que as nossas expectativas, de um para com o outro, mudaram tanto assim que não há mais pontos em comum suficientes para manter homens e mulheres unidos por muito tempo? Será nos encontramos no momento do desencontro, onde homens e mulheres caminharão para direções diferentes e sozinhos, depois de curtos períodos juntos? Será que, por não nos compreendermos, viveremos em sucessivos encontros e despedidas? Será que esses eventuais encontros serão não mais que tentativas temporárias de fazer dar certo, até aquele fatídico dia da separação ou da conformação?


Ou serão verdadeiras tentativas de fazer dar certo, de caminhar adiante, de viver, de experimentar, de aprender, mesmo que errando?


Hoje não ofereço respostas ou conclusões, apenas reflexões. Reconheço a minha incapacidade para lidar com o tema. Como diz a sapiência de Ana Carolina, “eu que não sei quase nada do mar, descobri que não sei nada de mim”.

domingo, agosto 31, 2008

O cão-didato



Eu sei que já escrevi sobre esse tema e já tinha prometido a mim mesmo apenas uma crítica por eleição. Mas nesta época de politicagem é irresistível mais esse desabafo, porque não tem nada mais chato do que um candidato.



O candidato é como fosse uma raposa que sorri para entrar no galinheiro. E esse sorriso amarelo está adesivado em pára-choques, estampado em cartazes e outdoor´s pela cidade; passando uma imagem de austeridade, de honestidade e de simpatia.



O candidato é o maior poluidor do meio-ambiente. Não basta a barulheira do nosso dia-a-dia. O candidato faz mais. Emporcalha tudo com sua marca. Ele quer ser visto e ouvido sempre.



O sujeito é o responsável pelo massacre de carros-de-som ensurdecedores pela cidade, repetindo incessantemente aquelas marchinhas hipnóticas e mal plageadas, para rimar seu nome com uma seqüência de números e assim digerirmos suas promessas.



É ele quem atrasa nosso deslocamento, gerando um cordel de carros que acompanham o seu desfile com destino a lugar algum. E o povo ainda acha pouco. Colabora com um buzinasso.



É o cara que espalha papel pelas ruas, que acaba com seu sossego, que promove queima de fogos e fanatismo popular, que rouba o seu direito de querer fugir de tudo isso na tv ou no rádio, porque até ali ele te persegue.



Ele só dá sossego quando é eleito.



Daí pra frente toma um banho de álcool e de perfume caro pra tirar a inhaca do povo, se embriaga no poder pra nos esquecer e passa a praticar as mais atrozes pilantragens para recuperar o investimento da campanha; sem ser perseguido por ninguém.



Ri pra nós antes para rir de nós depois. Seja sossego ou dinheiro, está sempre nos furtando.



Quero ver o cão, mas não quero ver o cão-didato!


terça-feira, agosto 26, 2008

Eu que não sei quase nada de mulher

Como diz Ana Carolina, ao advertir que não sabe quase nada do mar, eu que não sei quase nada de mulher, arrisco dizer que deve ser muito difícil de sê-las, mas, como mero expectador, vejo o quanto são meritosas as que o fazem com estilo, charme, graça e orgulho.


Não falo da dificuldade imposta pela sociedade, desde o nascimento, da gravidez à viuvez.


Não falo da luta cotidiana em casa e no trabalho, de turnos triplos, de mãe-profissional e profissional-mãe, trabalhando mais e ganhando menos.


Também não falo do encargo avolumado pela qualidade de homens que tem por aí, cada vez mais necessitados de mulheres-mãe.


Falo de tudo isso sem perder o cuidado consigo próprias, sem perder o zelo, a beleza, o charme, a alegria de estar de bem com a vida, o brilho no olhar e a luz no sorriso.


Eu mesmo não agüentaria tamanha tarefa. Se for pra ser super de novo, entro na fila dos superman´s. Mulher-maravilha é tarefa para poucas.


Ser homem é muito mais cômodo e fácil. Por isso ficamos mal acostumados. Sem variar muito, gastamos o mesmo tempo para nos aprontarmos para o trabalho ou para um casamento.


Já para a mulher, tudo é mais complicado: produção, cabelo, salão, maquiagem, unhas, sandália emprestada da tia da amiga da vizinha, que combina com a bolsa que está guardada no baú.


Fazer algo bem feito tem seus méritos. Mas há muito mais méritos em fazer bem feito o difícil e nem sempre agradável, como ser uma bela mulher.


Sugiro a leitura de um texto de quem entende um pouco mais que eu sobre essa complexidade: Flávio Gikovate, em “Reflexões sobre o Feminino”.

quinta-feira, agosto 21, 2008

TPMacho

Pois é, como vimos, para ser feliz com alguém, precisamos estar bem conosco mesmos.


Mas todos nós temos períodos em que não estamos bem por algum motivo e isso pode afetar o nosso par, o nosso relacionamento.


Algumas mulheres, por exemplo, têm a famosa TPM, que as deixa num temporário estado de fúria e os homens num constante estado de alerta.


As grandes guerras começaram por causa da TPM. Reinos foram perdidos por essa alteração hormonal. A queda do Império Romano e o início da Idade Média foram atribuídos à TPM. As grandes catástrofes da humanidade tiveram um “dedinho” de TPM. Neste exato momento, a sua vida pode estar sendo decidida por alguém com TPM. A TPM está à sua volta!


E os homens, será que eles sofrem de algo similar à TPM feminina? Será que eles ficam fragilizados, sensíveis, carentes, amuados, chorosos, briguentos, ávidos por chocolate? Algo nos deixa mais dependentes da compreensão e do carinho delas?


Claro que estou falando de homens de verdade, daqueles que choram e não têm medo de esconder seus sentimentos; e não dos protótipos incipientes de machos mal-acabados, ainda tão sortidos por aí.


Se os homens levaram milênios para aprender a lidar com essa tal de TPM, e ainda nos saímos tão mal; será que as mulheres sabem lidar com o homem que expõe seus sentimentos, que também tem horas de “fraqueza”, que busca amparo e proteção em quem está do seu lado?


Será que elas sabem compreender os nossos “momentos TPM”, ou, para alguns protótipos de mulher, o homem ainda não chora, não sente, não se importa?


Boa sorte àqueles que vivem os seus super-poderes sem abdicar da sua humanidade.


sábado, agosto 16, 2008

Eleições 2008

O período de campanha eleitoral vai recomeçar.


Acho essa época muito instrutiva porque aprendo muitas coisas.


Aprendo como puxar o saco de quem não se conhece.


Aprendo a fazer versões das mais inusitadas músicas em nome do desespero da rima de nome com números.


Aprendo que adversários de ontem são aliados de hoje e os inimigos de amanhã.


Aprendo que poluição não é só material, mas sonora, visual e eletrônica; que lixo existe nas ruas, colado nos carros, nas idéias, nas cabeças, nas propostas e na Câmara.


Aprendo como é pobre a nossa política e como ela é feita por pobres para pobres… de espírito.


Aprendo a ter vergonha na cara.


Aprendo que o tempo passa rápido e que nem lembro em quem votei na última eleição, mas não sinto falta de quem só aparece de quatro em quatro anos sorrindo pra mim.


Aprendo que essa política pobre assalta meu bolso, minha casa, minha TV, meu rádio, meu computador e meu sossego, rouba meu suor e minha paz.


Com tudo isso aprendo o valor de uma boa viagem pra bem longe dessa sujeira toda.


Porque aprendi que sou de aço, mas não sou de ferro, e que paciência tem limite.



segunda-feira, agosto 11, 2008

As colheres


(Adaptado de um texto anônimo, mas dedicado à amiga Lívia, em agradecimento)


Conta uma lenda que Deus convidou um homem para conhecer o céu e o inferno.


Foram primeiro ao inferno.


Ao abrir a porta, o homem viu uma sala em cujo centro havia um caldeirão de sopa e à sua volta pessoas famintas e desesperadas. Cada uma delas segurava uma colher, porém de cabo muito comprido, que lhes possibilitava alcançar o caldeirão, mas não permitia que colocassem a sopa na própria boca.


O sofrimento era grande.


Em seguida, Deus levou o homem para conhecer o céu.


Entraram em uma sala idêntica à primeira: havia o mesmo caldeirão, as pessoas em volta e as colheres de cabo comprido.

Mas ali todos estavam saciados. Não havia fome nem sofrimento.


“Eu não compreendo”, disse o homem a Deus, “por que aqui as pessoas estão felizes enquanto na outra sala morrem de aflição, se é tudo igual?”.


Deus sorriu e respondeu:

Você não percebeu? É porque aqui eles aprenderam a dar comida uns aos outros”.


Vimos que as pessoas na sala do inferno estavam tão preocupadas com seus próprios problemas particulares que não pensavam em alternativas para resolver a situação do grupo.


Como todos estavam querendo safar a si próprios, não buscaram alternativas para o problema. Contudo, se houvesse espírito solidário e ajuda mútua, como na sala do céu, a situação teria sido rapidamente resolvida.


Dificilmente o individualismo consegue transpor barreiras. A consciência particular de fazer parte de um “todo” é essencial para a evolução espiritual. Uma equipe participativa, homogênea, coesa, vale mais do que um batalhão de pessoas alienadas e com posicionamentos isolados. Isso vale para qualquer área de sua vida. Não fosse assim, certamente teríamos nascido sozinhos no planeta.


Portanto, “céu” e “inferno” não são lugares geográficos; e sim estados de espírito que construímos e espalhamos em nosso entorno.


Boa sorte a todos que se empenham em mudar o estado de nosso planeta, ao invés de tentar apenas mudar a si próprios de lugar.